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19
Jul

«Sérgio Conceição, o líder D»

«Sérgio Conceição, o líder D»

Como o método DISC e as neurociências explicam a liderança do treinador da equipa principal do Futebol Clube do Porto

Na última edição da Revista Human, Sérgio Almeida fez uma análise comportamental do treinador do Futebol Clube do Porto, Sérgio Conceição, à luz da metodologia DISC e de descobertas recentes no mundo das neurociências.

Esta metodologia foi criada com base na análise de padrões comportamentais e permite-nos compreender como respondemos perante diversas circunstâncias, nomeadamente: problemas, desafios, relacionamentos, influências, mudanças, ritmos, regras e procedimentos.

Em seguida poderá ler o artigo completo e se gosta destas temáticas, aproveite para conhecer o Programa completo do Certified International Professional Coach da ICU.

Texto: Sérgio Almeida (fundador CEO do SEAL Group e também diretor para Portugal da ANE International)

Artigo original [aqui]


Em 2018, Sérgio Conceição provou que é um líder D. Quando há 90 anos o psicólogo William Moulton Marston criou a metodologia DISC, com o seu livro «Emotions of Normal People» (1928), estaria longe de imaginar que o Futebol Club do Porto iria ganhar este ano o campeonato português de futebol.

A metodologias DISC permite definir quatro comportamentos comuns, estando presente em qualquer ser humano em níveis diferentes de pessoa para pessoa. DISC é o acrónimo de domínio (como respondemos perante problemas e desafios), interação (como nos relacionamos e influenciamos os outros), serenidade (como respondemos às mudanças e ao ritmo) e cumprimento (como respondemos perante as regras e os procedimentos). Ou no original em inglês, ‘dominance’, ‘influence’, ‘steadiness’ e ‘conscientiousness’.

Tempestade perfeita

A escolha de Sérgio Conceição para treinador do Futebol Clube do Porto provou ser a tempestade perfeita, aquela de que o clube precisava para encontrar o caminho das vitórias. Para lá da pessoa (os seus valores, a sua história no clube, etc), é interessante percebermos através da ciência como o perfil do treinador encaixou naquilo de que o clube necessitava: alguém que conseguisse unir uma equipa de retalhos, motivar uma massa de adeptos descrentes, demonstrando uma confiança inabalável em si próprio e no seu ‘staff’. Esse perfil existia, e Jorge Nuno Pinto da Costa, o presidente do clube, mostrou que estava atento quando o identificou: Sérgio, o líder D.
Como o próprio titulo deste artigo sugere, vamos focar-nos então na componente dominante em Sérgio Conceição: o fator D.

O perfil do líder

Sérgio Conceição têm as principais características de um perfil D: gosta de desafios, assume riscos, procura inovar constantemente, é persistente nos objetivos que persegue e muito orientado para resultados.

Se olharmos para a sua chegada ao Futebol Clube do Porto, começou por assumir o desafio «vamos ser campeões este ano»; aliás, a sua carreira está cheia de declarações arriscadas, muitas das vezes assumindo conflitos e lutas dentro e fora de campo, com um temperamento considerado explosivo pelos seus antigos colegas de equipa. Mas se existe um traço de perfil D em Sérgio Conceição, esse vem ao de cima na forma corajosa, competitiva e decidida como comunica com os jogadores, com o ‘staff ’ e com os ‘media’.
Sobre a comunicação do líder D, o método DISC explica-nos que sendo o de alguém que vive intensamente os resultados, muitas vezes tem o coração na boca. A sua voz é habitualmente forte, clara e transmite segurança, o seu olhar é focado, gosta de olhar olhos nos olhos quando comunica, tem um ritmo acelerado e o volume elevado. Esta descrição faz-nos lembrar alguém, certo? Sérgio Conceição, com certeza.

A roda com a equipa no final dos jogos

O treinador do Futebol Clube do Porto criou um novo hábito no final de cada jogo: quer ganhe ou perca, a equipa reúne-se no centro do relvado numa roda, os jogadores olham-se nos olhos e soltam um grito de união. Este ritual é muito bem aceite pelo nosso cérebro social; aliás, é fundamental para o sentimento de pertença.

O número de estruturas cerebrais, que participam no processamento das informações sociais, bem como a complexidade da conexão dessas áreas, é surpreendente. Todos nós temos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e entender os seus sentimentos e as suas intenções (aquilo a que chamamos empatia), e para isso contamos com os «neurónios espelho», responsáveis pela ativação, entre outros, do sistema límbico, que é responsável pelas emoções.

Após as derrotas, Sérgio Conceição juntou sempre a equipa, colocando todos os jogadores em comunidade, o que permite reduzir a dor individual e colocar toda a equipa no mesmo comprimento de onda, e também ultrapassar logo ali no campo a desilusão da derrota e acelerar o processo de libertação de dopamina (fundamental para a motivação) e focar os jogadores no próximo desafio.

Um exemplo que nos permite entender a importância do grupo no impacto da coesão social no cérebro e na diminuição da dor é dado pelos rituais muito comuns nas regiões africanas no tratamento das doenças, onde a aldeia inteira se reúne à volta do doente para assistir à sua cura. Nas vitórias os efeitos desta ação são também muito importantes. Imagine os jogadores que estiveram em campo a celebrar após o último apito do arbitro e todos os outros a irem para o balneário… Como ficaria o grupo? Aqui também este ritual é fundamental para unir aqueles jogadores que jogaram e aqueles que ficaram no banco, criando o verdadeiro conceito de «somos um, somos Porto».

Integrar e celebrar em equipa num «mega abraço» conjunto permite aumentar os níveis da oxitocina, responsável pelo bem-estar e pela diminuição dos níveis de ‘stress’. Com tudo isto, o treinador do Futebol Clube do Porto conseguiu que o grupo saísse reforçado e que a motivação de todos ficasse em alta, bem como a sua felicidade individual.

Conclusão

Sérgio Conceição é um líder e William Moulton Marston não teria dúvidas se tivesse oportunidade de o conhecer, nem as neurociências têm dificuldade em prová-lo.
E assim são os líderes. Com todas as suas imperfeições e todas as suas virtudes, conseguem criar equipas quando acreditam num propósito maior do que eles próprios. Podemos afirmar sem qualquer dúvida que Sérgio Conceição acreditou. E conseguiu.

In Revista «human» – Edição Julho/Agosto 18

Artigo original [aqui]