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10
Mai

Fernando Fallé | Entrevista à revista “human”

«Para evoluirmos em termos profissionais, temos que passar da dimensão técnica para as dimensões social, conceptual e pessoal.»

O selecionador nacional de Angola de hóquei em patins, aluno da International Coaching University (ICU) em Portugal, fala do coaching de alto rendimento, das características dos atletas vencedores, do que o desporto pode ensinar ao mundo das organizações e do valor do desenvolvimento pessoal e das soft skills na evolução profissional.

Texto: Redação «human» (com o apoio de ICU Portugal). Artigo publicado [aqui]


Enquanto selecionador de Angola de hóquei em patins, como vê a aplicação do coaching em equipas de alto rendimento?

A aplicação do coaching em equipas de alto rendimento é hoje em dia uma mais-valia e uma condição sine qua non para o sucesso. E quando nos referimos ao coaching, a sua validade e a sua importância são transversais à organização, seja para dirigentes, seja para técnicos ou para jogadores.

Os atletas já não se contentam em receber e cumprir ordens. Querem entender o que estão a fazer e por que é que estão a fazer. Cada um quer perceber qual é o seu papel como pessoa e profissional na equipa e na própria organização. Precisa de se sentir equilibrado, situado e bem consigo próprio para render ao seu mais alto nível. Sente necessidade de encontrar um propósito maior para a sua atividade.

O mero «executar na perfeição» não é suficiente para que se obtenha resultados excecionais. O comprometimento e o emocional engagement com os objetivos é fundamental para que se obtenha resultados extraordinários. Alto rendimento e excecionalidade não se consegue obter sobre coação ou obrigação. O atleta tem que querer, tem que desejar. A autossuperação contínua tem que ser um resultado da sua própria iniciativa, da sua própria vontade. A excecionalidade exige uma atitude pessoal, digamos assim, excecional.

Com o coaching podemos alcançar a melhor versão de nós próprios, em termos pessoais e em termos profissionais. A expressão «dig deeper» revela muito sobre o processo de coaching. Conhecer-se melhor a si próprio, procurar mais fundo, ir ao âmago das questões, perceber quem somos, o que fazemos e principalmente o «porquê» de o fazemos. Quando sabemos o «porquê» das coisas, o «como» torna-se suportável, ultrapassável e muitas vezes desejável.

O processo de coaching torna-se assim uma caminhada atrativa e aliciante para o coachee, pois é um processo de autodescoberta, autoconsciência, autorregulação, realinhamento e reequilíbrio com consequente maximização de todo o nosso potencial. Um processo onde não existe certo nem errado, mas somente escolhas e consequências. Um processo onde o livre arbítrio, as escolhas e a autorresponsabilização estão sistematicamente presentes. Um processo onde passamos a ser o ator principal na nossa própria vida, em vez de um mero espectador.

De acordo com a sua experiência, quais são as principais características comportamentais de um atleta vencedor?

Acredito que um atleta vencedor apresenta diversas características que se manifestam nos seus comportamentos. São as seguintes:

  • ambição e competitividade extrema (necessidade incontrolável de competir e vontade indomável de ganhar e ter sucesso);
  • proactividade (não tem medo de correr riscos; a vontade de ganhar é superior ao medo de falhar);
  • persistência e resiliência (acredita que tudo é possível para si; desistir não é opção);
  • intensidade e presença em tudo o que faz (sem red line, sem poupanças, sem desculpas);
  • autoconfiança e mindset progressivo (acredita que tudo se aprende e tudo se consegue melhorar; quando não sabe ou não consegue, encontra maneiras de mudar e melhorar até alcançar o que pretende);
  • capacidade de adaptação e superação (contra tudo e contra todos; em qualquer ambiente ou situação; com instinto de «sobrevivência» muito presente);
  • não aceita que alguém seja melhor e está disposto a tudo para provar isso mesmo);
  • inteligência emocional e resiliência mental (controlo sobre os seus pensamentos e as suas emoções em situações de ansiedade e stress extremo);
  • capacidade de criar mentalmente imagens, situações e cenários positivos e motivadores (controlando os seus pensamentos e o seu diálogo interior, criando e desenvolvendo as suas próprias crenças potenciadoras);
  • perfeccionista (são muito críticos, detalhistas e assertivos nas suas análises).

Mas, acima de tudo, são pessoas normais, que riem, que choram e que acima de tudo querem ser felizes. Pessoas que escolheram ser a melhor versão de si próprias, sem desculpas, medos, limitações ou restrições exteriores. Utilizam muitas vezes as seguintes perguntas: «Por que não?»/ «Por que não tentar?»/ «Por que não eu?» Partem para a ação. E conseguem.

O mundo organizacional vive hoje de grande competitividade e foco em resultados. Em que medida o desporto pode proporcionar-lhe lições ou princípios de sucesso?

O desporto de alto rendimento como ecossistema orientado para a obtenção de resultados partilha inúmeras afinidades e semelhanças com o ecossistema organizacional empresarial. O próprio desporto profissional e de alto rendimento já ultrapassou a esfera do simples clube. As sociedades anónimas desportivas [SAD] ligaram o mundo empresarial e corporativo com o mundo desportivo. Os clubes têm uma estrutura e um modelo corporativo e em alguns casos são geridos como empresas.

Enuncio ainda algumas afinidades e alguns princípios de sucesso que, na minha opinião, e de alguma forma, também são replicados nas organizações corporativas/ empresariais.

O desporto apresenta infraestruturas e modelos organizacionais orientados para a aprendizagem, o treino e a formação dos seus quadros. Possui gabinetes de recrutamento especializado, com especial vocação para a deteção e a seleção de talentos. O objetivo final é detetar e captar o mais precocemente possível os jovens talentos, maximizando o seu potencial de forma a criar mais-valias para a própria organização.

Apesar dos investimentos megalómanos feitos por alguns clubes em determinados jogadores, nem sempre ganham. O todo tem que ser mais do que a soma das partes. O coletivo à frente do individual. A equipa sobrepõe-se ao indivíduo. Nem sempre a melhor equipa é a que tem os melhores elementos. Ter uma equipa é mais importante do que ter um conjunto de estrelas egocêntricas e com falta de sentido coletivo e social.

A cultura organizacional do clube e da empresa determinam o perfil das contratações e com o tempo influenciam a orientação dos comportamentos dos elementos que dela fazem parte. No entanto, praticamente não existem barreiras em termos de nacionalidade, raça, credo, gostos ou tendências. A cultura desportiva e organizacional absorve todas essas diferenças, tentando transformá-las em vantagens. E nos dias que correm a diversidade é uma vantagem. Isto porque nos permite olhar para os acontecimentos de diversas maneiras e com diferentes pontos de vista, tentando antecipar tendências e soluções.

Por último, importa maximizar recursos e obter resultados extraordinários. É talvez o ponto mais consensual. No entanto, mesmo que por vezes pareça ficar esquecido por ambos os ecossistemas, os resultados facilmente nos recordam desta verdade inultrapassável. As pessoas são os grandes ativos e as mais-valias em todas as organizações. É nelas que devem de ser feitos os investimentos. Na sua formação como pessoas e profissionais de excelência.

Que papel podem ter o desenvolvimento pessoal e as soft skills na evolução profissional?

Se entendermos as soft skills como habilidades comportamentais inatas ou desenvolvidas, que para além de facilitarem e potenciarem o trabalho em equipa melhoram a assertividade e a comunicação e minimizam conflitos no ambiente organizacional, facilmente percebemos a sua importância no futuro.

As organizações valorizam cada vez mais o trabalho em equipa, fruto da consciência de que juntos produzimos mais, melhor, mais depressa e com menos desgaste. Assim sendo, o profissional capaz de trabalhar em equipa, mobilizando os outros em seu redor, acaba por potenciar as forças de todos os elementos, beneficiando a equipa e a própria organização. Esta habilidade, quando presente, abre possibilidades rumo a cargos de liderança nos termos exigidos pelo mercado neste momento.

A capacidade técnica é fundamental, mas por si só não vai permitir ascender muito na escala de liderança dentro de uma organização. Aspetos sociais, conceptuais e de autorregulação pessoal farão a diferença ao longo do caminho.

Não basta saber, é preciso saber explicar. E é fundamental que as outras pessoas estejam recetivas. Para isso, é necessário criar empatia e sinergias com os outros elementos da equipa e da organização. Os skills sociais são fundamentais nos dias que correm. A capacidade de criar definições, conceitos e sistemas motivadores e inspiradores levam a liderança e as organizações para outro nível. Cada vez mais a capacidade de comunicar, interagir, mobilizar, motivar e inspirar é necessária.

O líder de hoje é aquele que comunica bem e consegue extrair de cada um o seu melhor, de forma a conseguir resultados coletivos cada vez mais expressivos. O líder visionário, carismático, inspirador e humanista tem que andar de mãos dadas com o gestor. Nunca como hoje foi tão importante e necessário ter equipas multidisciplinares e multifacetadas. Para evoluirmos em termos profissionais, temos que passar da dimensão técnica para as dimensões social, conceptual e pessoal. Só iremos consegui-lo através do desenvolvimento pessoal ao nível das soft skills decorrentes do esforço empregue na tomada de consciência, no controlo e no desenvolvimento das nossas perceções, emoções e reações.